O OBREIRO E SUA INTEGRIDADE

Pr. Enilson Heiderick

 

Ponderações bíblicas sobre comportamento íntegro e os reflexos da integridade na vida dos que militam na Obra do Senhor.

 

Integridade vem do latim integritate, e significa a qualidade de alguém ou algo a ser íntegro, de conduta reta, pessoa de honra, ética, educada, brioso. São exemplos de integridade moral e corporal: a vida íntegra, a integridade física, dos bens sociais e individuais, integridade da honra e da fama, a integridade da intimidade pessoal, do nome, da imagem e dos sentimentos. É indiscutível a admissão da existência de determinados bens da personalidade e sua integridade, portanto, esta coaduna com o respeito, e este com a moral, e, quem tem moral, é íntegro. É sinônimo de honestidade, retidão, imparcialidade.

A integridade aponta para: retidão, honradez, pureza, inocência, castidade, moralidade e virtuosidade. Devemos atentar que a integridade do obreiro é medida pelo comportamento que ele demonstra em circunstâncias adversas, sem perder o equilíbrio emocional.

Os princípios básicos da integridade e honestidade dependem de um compromisso com Deus e Sua Palavra. “E Daniel assentou no seu coração não se contaminar...” (Dn 1.5-8). Se observarmos com cuidado este posicionamento de fé em Daniel, veremos que o servo de Deus tinha uma identidade a preservar, e a sua história glorificou a Deus. A integridade é provida de uma convicção cujo fundamento é a fé; sem ela não há realização que perdure.

A integridade do obreiro vai gerando lealdade a Deus e aos seus superiores. Com a lealdade vem a estabilidade, que inclui a disposição de aceitar responsabilidade, tomar iniciativa e perseverar numa tarefa até que ela seja completada.

“A vida de um obreiro é a vida de seu ministério”. Este provérbio é tão verdadeiro hoje quanto sempre foi. De fato, integridade ministerial é um elemento indispensável para que se sustente qualquer credibilidade entre um povo com discernimento com o qual tenhamos intimidade pastoral. Tal intimidade nos deixa vulnerável para sermos conhecidos por quem e o que nós realmente somos em relação à verdade salvadora na qual trafegamos. Em um relacionamento de obreiro e a obra de Deus, pela descrição bíblica, no qual intimidade mútua é essencial (Jo 10.14), integridade consistente e compreensiva é um imperativo para qualquer um que deseja ter um ministério que seja atrativo e de credibilidade.

Neste primeiro momento, me deterei a três áreas de suprema importância na vida do obreiro. A saber: integridade pessoal, doméstica e ministerial.

 

INTEGRIDADE PESSOAL

 

De suprema importância é a integridade pessoal. Talvez nenhum outro texto das Escrituras tenha resumido de forma tão sucinta e ainda bem compreensiva como a integridade pessoal deva ser mantida do que Atos 24.16. Paulo disse a Felix: “Por isso, também me esforço por ter sempre consciência pura diante de Deus e dos homens”. Este texto revela que no coração da integridade está a determinação de viver de maneira confortável na presença de Deus com uma consciência pura. Manter uma consciência livre de ofensas nas câmaras secretas de nossos pensamentos, nas águas sombrias de nossas motivações, em nossas imaginações e fantasias. Isso significa poder sair de frente de nossos computadores ou TVs com uma consciência saudável e sem condenação. Se a consciência for violada correrá rapidamente à fonte aberta para o pecado e a impureza. Devemos resolver com o salmista: “[...] em minha casa viverei de coração íntegro. Repudiarei todo o mal [...]” (Sl 101.2-3 — NVI). Este homem conhece a ideia de se arrancar um olho e a impiedosa amputação de uma mão ofensora. Qualquer coisa que manche a sua consciência e perturbe o seu andar confortável com Deus deve ser retirado de sua vida rapidamente.

 

INTEGRIDADE DOMÉSTICA

 

Em seguida, o apóstolo afirma que sem uma boa dose de integridade doméstica, nenhum homem deve ser feito bispo na casa de Deus (1Tm 3.4-5). Um obreiro deve ter uma conduta de forma a ter o controle da consciência dos membros de sua família através da integridade consistente de sua vida. Nossa esposa e filhos deveriam ser capazes de dizer a si mesmos e aos outros: “meu esposo, meu pai é íntegro”.

 

INTEGRIDADE MINISTERIAL

 

Existe a integridade ministerial. Ela se relaciona com as duas maiores áreas: o chamado e a responsabilidade ministerial, especialmente para aqueles “cujo trabalho é a pregação e o ensino” (1Tm 5.17). Se quisermos manter integridade em nossas pregações precisaremos pagar o preço conectado com qualquer esforço sincero de cumprir a determinação de 2 Timóteo 2.15: “procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar e que maneja corretamente a palavra da verdade”. Para produzir sermões semana após semana, e ano após ano, que sejam estrategicamente corretos, sãos em suas doutrinas, possuam ilustrações que ajudem ao ouvinte, homileticamente limpos, aplicados de maneira prática e cobertos com a fragrância de Cristo e os grandes indicativos da graça, será necessário trabalho, trabalho, e mais trabalho. A manutenção de nossa integridade não poderá ser percebida de nenhuma outra forma.

 

A CONFIANÇA DE DEUS EM NOSSA INTEGRIDADE

 

“Julga-me, Senhor, segundo a minha retidão, e segundo a integridade que há em mim” (Salmo 7.8). Até que ponto Deus pode confiar em nossa integridade? Como tem sido o nosso testemunho em relação à corrupção reinante no mundo atual? Que conclusão os nossos irmãos da igreja ou nossos amigos incrédulos tiram das nossas atitudes? A maior fonte de poder espiritual que podemos demonstrar a todos que nos conhecem é uma vida de íntimo relacionamento com Deus. Seu ensino nos diz: “Sede santos, porque Eu sou santo” (1Pe 1.16). E como podemos ser santos como o Senhor? Buscando experimentar uma vida de comunhão com Sua Palavra e de oração diante de Seu altar. Seremos então perfeitos? Claro que não, mas estaremos dizendo ao Senhor que confiamos nEle para moldar o nosso caráter e nos fazer viver de uma maneira íntegra que glorifique sempre o Seu santo nome.

Todos nós devemos buscar e viver uma vida de integridade a cada dia. A palavra “integridade” vem de “íntegro”, que quer dizer “inteiro”. Não podemos servir a dois senhores (Mt 6.24a). Nosso coração precisa ser íntegro, inteiro para Deus.

Integridade não é o que você aparenta manter quando todos te observam. É quem você é quando ninguém está olhando. É um nível de moralidade excelente, sem importar-se com o que está acontecendo ao seu redor. É um alto padrão de honestidade, veracidade, decência e honra que jamais é quebrado. É fazer ao outro aquilo que gostaria que lhe fizessem (Mt 7.12).

O íntegro não muda a sua palavra, mesmo que isso lhe custe. Não usa jogo de palavras, não fala com meias verdades e não deixa dúvidas no ar de maneira que ninguém nunca sabe qual é sua posição, pelo contrário, seu sim é sim, seu não é não (Mt 5.37). Seu objetivo é agradar a Deus e fazer o que é certo. Uma pessoa pode ser muito estimada pelos homens, mas abominável aos olhos de Deus (Lc 16.15).

 

RESULTADOS DO SER ÍNTEGRO

 

A integridade nos faz caminhar em segurança. “Quem anda em integridade, anda seguro; mas o que perverte seus caminhos ficará conhecido” (Pv 10.9). A integridade nos leva a presença de Deus. “Quanto a mim, tu me sustentas na minha sinceridade, e me puseste diante da tua face para sempre” (Sl 41.12). A integridade atrai bênçãos para nós e nossa descendência. “O justo anda na sua integridade; bem-aventurados serão os seus filhos depois dele” (Pv 20.7).

Temos caminhado em integridade? Será que podemos fazer a oração que Davi fez no Salmo 7.8, pedindo que Deus que nos julgue segundo a nossa integridade?

Deus quer realizar um milagre em nossa vida a cada dia. Precisamos ter uma nova experiência com o Senhor todos os dias e orarmos pedindo a Ele que transforme o nosso coração e aperfeiçoe nosso caráter para que sejamos mais parecidos com Jesus! Que estejamos prontos a ser bênção para a nossa igreja como para nossos amigos não cristãos. Agindo assim, estaremos glorificando o nome do Senhor e iluminando o caminho de muitos. “Ele reserva a verdadeira sabedoria para os retos; e escudo para os que caminham em integridade” (Pv 2.7); “Abomináveis para o Senhor são os perversos de coração, mas os que andam em integridade são o seu prazer” (Pv 11.20).

 

A INTEGRIDADE E NOSSA UNIDADE

 

Integridade é fazer escolhas que não causam “rachaduras” nem destroem a nossa unidade como pessoas. É um compromisso interior que se manifesta em atitudes e ações. Pessoas com baixo grau de autoestima ou falta de respeito próprio não têm o senso de integridade e não pensam que suas ações possam afetar outras pessoas. A unidade que nos é dada por meio de nossa redenção (a ação do Senhor Jesus em nos livrar do pecado e nos fazer novas criaturas) nos garante um pouco de senso de integridade.

Quando o Senhor Jesus nos perdoa e nos restaura, somos feitos íntegros nEle. “O justo anda na sua integridade, felizes lhes são os filhos depois dele” (Pv 20.7).

 

Dando nome às nossas ações

O primeiro passo em direção à integridade nos leva a reconhecermos nossas fraquezas, as áreas frágeis em nosso caráter, e que necessitam de nosso redobrado cuidado. Em sua carta à Igreja de Corinto, o apóstolo Paulo já disse que somos fortes quando reconhecemos onde somos fracos (2Co 12.1-10). Precisamos aprender a dar o nome certo a determinadas ações: pecado, iniquidade, mal.

Muitas vezes usamos de eufemismo e aparecem outras palavras como: erro, lapso moral, má escolha. Precisamos fazer da verdade a nossa aliada a fim de alcançarmos a integridade. A Palavra de Deus nos garante em 1 João 1.19 que: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele (Jesus) é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”. Deus quer que reconheçamos os nossos pecados, não para permanecermos com eles, mas para sermos limpos e livres de sua presença.

 

Os inimigos da nossa integridade

As aflições prolongadas que tentam nos desanimar. Em Gênesis vemos José sendo vendido como escravo por seus irmãos aos 17 anos de idade, e somente nos seus 30 anos foi ele apresentado ao Faraó, tendo sua vida transformada. Foram longos 13 anos de altos e baixos (mais baixos que altos). Mas, por todo esse tempo, José manteve ante seus olhos a lente da fidelidade de Deus, o que lhe capacitou ver, além das circunstâncias, a boa mão do Senhor sobre ele.

As lembranças desagradáveis do passado — Você e eu escolhemos o que nos transforma em reféns. Escolhemos quem vai nos manter imobilizados sob seu domínio. Quase sempre podemos decidir quem e o que nos vai abater. Não há certamente ninguém que não tenha um depósito de lembranças penosas que poderiam absolutamente derrotá-lo. Mas elas não precisam fazer isso. Você talvez precise de ajuda para transformar o ferimento em uma cicatriz inofensiva. E possível que precise de um amigo, um parceiro ou até um conselheiro profissional que o ajude no processo de livrar-se desses grilhões. Aprenda essa maravilhosa lição: não é necessário que sejamos derrotados pelas más lembranças. Desembarace-se deste peso e olhe firmemente para Jesus.

 

O PRINCÍPIO DA INTEGRIDADE NA VIDA DE PAULO

 

“Paulo, apóstolo não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gálatas 1.1).

A Galácia era uma província romana da Ásia menor e as suas igrejas foram fundadas por ocasião da primeira viagem de Paulo. Os cristãos de lá passavam por um momento de crise de identidade, pois havia uma grande dissensão a respeito de certas doutrinas que os conduziam para um distanciamento do verdadeiro propósito que era Cristo.

Paulo escreveu essa carta e logo no começo ele afirma sua identidade e quem havia gerado nele tamanha convicção. Sua honestidade demonstrava sua integridade. Ser inteiro significa ser honesto, imparcial, reto. Quando falo sobre princípio espiritual é a respeito dos fundamentos da vida cristã. O que determina a identidade do cristão. A partir do momento em que se busca incessantemente praticar esses princípios.

Como ser íntegros para Deus? Paulo ensina aqueles cristãos como eles poderiam ser mais íntegros:

Integridade é não agradar a homens. Muitas pessoas em suas caminhadas deixam de progredir em crescimento espiritual por quererem agradar as pessoas. Paulo mostra claramente nesse versículo que para sermos servos de Cristo não podemos agradar as pessoas. A aprovação de quem o cristão é em Deus não vem de outros ou de si mesmos, mas de Deus. Integridade é ser inteiro pra Deus, ter uma vida total de entrega e saber sua identidade. Paulo tinha convicção do seu chamado, e tal convicção o tornava íntegro perante Deus. Ele sabia de onde tinha vindo, e o que Jesus havia feito em sua vida. O versículo 16 diz: “revelar seu filho em mim”. Mostra que a vida de Paulo foi transformada quando Jesus se revelou a ele.

Tal revelação aconteceu quando Paulo entregou tudo aquilo que ele era para receber o que Deus queria que ele fosse. Paulo era um perseguidor da Igreja, mas Deus queria usá-lo como um anunciador de Cristo. Somente através da revelação de Cristo o cristão pode ser alguém para Deus. Uma pessoa só pode falar de alguém quando o conhece intimamente. Não é preciso agradar as pessoas, é necessário anunciar Jesus Cristo.

A vida cristã é de ser servo e não de agradar as pessoas. Deus deu as pessoas para amar e até mesmo para servi-las, mas não para agradá-las. Quem é preciso agradar é Deus, mas Ele não exige isso, antes espera que as pessoas sejam inteiras perante Ele. Ele quer o coração e não os agrados. Viver para agradar faz parte de um mundo natural e não espiritual. Muitas vezes os cristãos preocupam em simplesmente agradar com o exterior, porém Deus quer obediência (1Sm 15.22).

Integridade é não viver no legalismo. Uma prática muito comum na vida de muitos cristãos é a de impor certas condutas, ou forçar certas atitudes, não levando em consideração o que está por dentro, no coração. No capítulo 2 da Carta aos Gálatas, Paulo fala de sua experiência quando foi a Jerusalém para expor o Evangelho que pregava para os outros apóstolos. Havia certa discussão a respeito da circuncisão a qual alguns afirmavam que os gentios convertidos precisavam fazê-la.

A circuncisão em si não era um ato incorreto ou pecaminoso, mas a forma imposta era legalista. Quando se impõe certas opiniões ou doutrinas que tiram a liberdade que se tem em Cristo, isso é legalismo. E quando se anula a graça que foi recebida de Cristo que foi a justificação. O cristão é justificado somente pela fé e não pelas obras da lei. E aqueles que vivem em Cristo, a vida já não tem mais valor e ele não tem medo de viver com sinceridade. O apóstolo Pedro viveu um momento de hipocrisia quando não quis sentar mais com os gentios quando Tiago chegou.

A hipocrisia ou falsidade faz pessoas legalistas, que olham somente para a lei, não olhando para o amor. Quando se rejeita as pessoas por elas serem quem são, é afirmado o legalismo. O remédio para o legalismo é o amor, mas não o amor fingido, mas o amor que age com a verdade. Quando Paulo encontrou Pedro o resistiu face a face, ou seja, tratou-o com a verdade. Não é necessário temer falar a verdade em Cristo, pois é através dela que se pode vencer o legalismo.

Integridade é viver pela fé. Paulo viveu uma vida de grandes experiências com Deus. Desde sua conversão até sua morte, sua vida foi repleta de atitudes de fé. Não foi por acaso que Ele recebeu a revelação de Cristo, mas foi através de uma vida de fé. No capítulo 3 de Gálatas, o discurso de Paulo para aqueles cristãos tem um tom de exortação. Ele os exorta a viverem pela fé.

A integridade tem seu fundamento na fé, pois o cristão não tem em si próprio o alicerce para uma vida reta perante o Senhor. Somente através do sacrifício de Cristo, o cristão pela fé tem acesso à vida de integridade. Em Romanos 5.1 lemos: “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”. A paz que se tem com Deus através da fé é a certeza que a integridade do cristão não é por si próprio. Viva a integridade incessantemente! Com integridade não se brinca.

Um ser humano íntegro não se vende por situações momentâneas, prejudicando alguém por motivo fútil e incoerente. Qualquer declínio na integridade acarreta consequências dolorosas em qualquer área da vida. Quando mais houver integridade mais haverá sucesso. A ausência da integridade só acarreta dor em frustração, em decepção. Em prejuízos emocionais e espirituais. É possível manter-se íntegro diante da corrupção. José foi incorruptível ao preferir a prisão à liberdade do pecado. João Batista preferiu perder a cabeça, a perder sua honra e sua integridade.